O papel faz bem ou mal ao ambiente?

        Daniela Pelazza / EyeEm
Associada ao abate de árvores e a elevados níveis de poluição, a indústria do papel adapta-se aos novos tempos e já faz gala de contributos relevantes para o ambiente – como o aumento da área florestal. Portugal acompanha o salto qualitativo na Europa, que lidera a revolução
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Ao contrário das previsões mais pessimistas, a indústria do papel continua a crescer. O papel de escritório mantém a popularidade, as embalagens incorporam-no cada vez mais (ou aos derivados como o cartão) e o papel sanitário está para durar. Mais pregos na sustentabilidade do planeta? Não necessariamente. Tal como o material que a suporta, a indústria tem vindo a reciclar-se na sua relação com o meio ambiente: da floresta à poluição, da energia à gestão dos terrenos, do consumo de água à reutilização das fibras de celulose, a demanda ecológica alastra, em nome de um lugar cativo na sociedade do futuro.

A desflorestação afeta gravemente as florestas naturais no resto do globo, mas na Europa, apesar do flagelo dos incêndios, a área florestal aumentou 17 milhões de hectares entre 1990 e 2015. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, mais de metade deste crescimento deve-se a novas plantações florestais, fornecedoras da madeira usada na produção da pasta de papel. São as próprias empresas do setor que plantam as árvores e gerem os terrenos, em ciclos de 30 a 40 anos. “A indústria moderna de papel não utiliza madeira proveniente de florestas naturais. A matéria-prima resulta de árvores plantadas especificamente para esse fim”, sublinha Luís Veiga Martins, diretor-geral da CELPA – Associação da Indústria Papeleira, da qual fazem parte a Navigator, a Altri e a Renova. “Quando se utiliza papel”, reforça, “está-se a dinamizar a plantação de árvores” e a aumentar a quantidade de carbono sequestrado à atmosfera, reduzindo-se a concentração de gases com efeito de estufa, responsável pelas alterações climáticas.

Em países como a Indonésia, o Canadá ou a Rússia, as florestas virgens ainda constituem fontes para a produção de papel. Mas no Brasil (onde a desflorestação é gritante) e no resto do planeta são as explorações agrícolas e pecuárias, de óleo de palma, soja e pastagens para gado, as principais ameaças, além da indústria da madeira ligada à construção e ao mobiliário.

“Em Portugal, o fabrico de papel não implica a diminuição da área florestal”, reconhece Domingos Patacho, da Quercus, a associação ambientalista que nasceu, em 1985, determinada a combater a substituição de carvalhos, azinheiras e sobreiros por eucaliptos, em território nacional. “Hoje ainda há pequenos produtores a fazer essa conversão, mas é um problema pontual”, desvaloriza.

O que, agora, mais preocupa o ambientalista é a extensão de eucaliptal entregue a si próprio. Dos quase 900 mil hectares plantados, as empresas da pasta de papel só gerem 150 mil. Os restantes, alega, podem ficar anos ao abandono, porque “só assim são rentáveis” na hora de vender a madeira às mesmas empresas, isto se escaparem aos incêndios. Domingos Patacho defende que a indústria não pode simplesmente lavar as mãos. Mas desde 2016, diz, que se nota uma maior atenção ao problema, elogiando a iniciativa Melhor Eucalipto.

Promovido pela CELPA e dirigido aos proprietários privados, o projeto consiste em incentivar uma “correta adubação para colmatar as deficiências nutricionais” dos solos e “garantir a sua sustentabilidade”, explica Luís Veiga Martins. Desde o ano passado, a CELPA passou também a oferecer o adubo e o aconselhamento técnico aos produtores florestais que mantenham as suas plantações limpas, de modo a reduzir os riscos de incêndio. O objetivo é beneficiar uma área de 100 mil hectares até 2024.

Eficiência energética exemplar
Sendo um passo em frente, ainda sobram mais de 600 mil hectares de eucaliptos fora do raio de ação das empresas de pasta de papel. E se, no caso da limpeza das matas, o Governo criou novas regras e há que esperar pelos resultados, já “o problema da erosão dos solos ficará para a próxima geração”, lamenta o antigo secretário de Estado do Ambiente, Carlos Pimenta, acentuando as suas reservas face à agravante das alterações climáticas, que trazem “secas prolongadas e chuvas intensas propícias à erosão”.

Na opinião do antigo governante, este é o único senão que resta na mudança de paradigma que se vislumbra na indústria do papel. “Globalmente, as fábricas portuguesas fizeram um esforço notável e começaram a trabalhar com padrões de qualidade ambiental de topo”, afirma. A poluição no rio Tejo, junto às celuloses de Vila Velha de Ródão, parece contradizer esta ideia, mas Carlos Pimenta garante que se trata de “um caso pontual, embora inadmissível”, até porque existe hoje tecnologia de tratamento de resíduos líquidos capaz de manter as descargas abaixo dos limites ambientais.

Ao nível da poluição do ar, a indústria europeia de papel reduziu as emissões de dióxido de carbono (CO2) em 26%, entre 2005 e 2015, tendo assumido o compromisso de baixar em mais 80% as emissões de gases com efeito de estufa até 2050. Já em relação ao excessivo consumo de água, Luís Veiga Martins, da CELPA, garante que “mais de 92% da água retirada de fontes superficiais e subterrâneas é devolvida às bacias e cursos hidrográficos, após tratamento de acordo com as exigências legais”.

Um dos maiores trunfos ecológicos do papel é o recurso cada vez menor a combustíveis fósseis na atividade produtiva. Em vez de derivados do petróleo, são em grande parte os resíduos de madeira (biomassa) que fornecem o calor e a eletricidade necessários para gerar, em simultâneo, energia térmica e elétrica, num processo conhecido por cogeração, um dos mais amigos do ambiente. Em Portugal, a indústria já é autossuficiente em eletricidade – e na Europa para lá caminha –, com um consumo de 71% de energia verde. “As fábricas de celulose são exemplares na utilização da biomassa”, atesta Carlos Pimenta.

Alternativa ao plástico…
e ao digital?

Outra grande mais-valia do papel será sempre a sua capacidade de reutilização. De acordo com os dados mais recentes do Eurostat, referentes a 2016, os países da União Europeia reciclam 85% dos resíduos de papel, enquanto os de plástico e os eletrónicos não chegam a metade (42% e 41%), apesar de ambos terem estabelecido novos máximos.

Em comparação com o plástico, as vantagens do papel parecem evidentes a vários níveis. “É um recurso não fóssil, sustentável e renovável”, nota o ambientalista Domingos Patacho, antes de ressalvar que a resposta certa pode não ser assim tão linear. Tomando como exemplo o saco de compras, há uma variável subjetiva capaz de fazer a balança pender para um lado ou para outro: a quantidade de vezes que é utilizado. A cadeia de produção e o transporte são outros fatores a ter em conta na pegada ambiental.

Talvez ainda mais complexo, a obrigar a novos estudos, é confirmar a convicção generalizada de que o suporte digital, em substituição do papel, traz ganhos ambientais. Nos últimos anos, face ao lixo eletrónico, ao consumo de energia dos computadores e à proliferação das baterias de lítio, em telemóveis e portáteis, com forte impacto ambiental, as dúvidas adensam-se. Não ajuda saber que a emissão de CO2 para a atmosfera da indústria eletrónica é o dobro da indústria papeleira. E ainda menos esclarecidos ficamos quando, pelas contas da Google, 75 simples pesquisas no motor de busca consomem tanta energia como ferver água para um chá. Por dia, são realizadas quase quatro mil milhões de pesquisas.

RUI ANTUNES

 

Fonte: Visão

29 de Junho, 2019

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